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As coisas mudaram por aqui. Finalmente conseguimos reunir a família e os amigos de Tapejara, Ibiaçá, Ijuí, Itajaí e de tantos outros lugares onde você os conquistou. Ninguém tinha compromissos inadiáveis e a distância não foi pretexto. A tristeza de tantos “filés” só me fez sentir mais triste, solitária, desolada. Foi difícil ter que conversar, relembrar, ser gentil com as pessoas. Na verdade, tudo o que mais queria era poder me trancar no meu mundo de vez e esquecer tudo o que fosse.
As coisas estão diferentes. Falta o sorriso, a alegria, a simpatia. Mais do que isso, ficaram coisas a ser ditas, fatos a ser contados, confidências a ser compartilhadas. Nunca vi meu pai tão triste, minha mãe tão inconformada. Todos vieram e todos choraram.
A Larissa não consegue mais torcer pro Inter, o Guto se pergunta como você teve coragem de entrar em nossa vida, tomar conta e ir embora sem dizer nada. Seus colegas de trabalho não estão satisfeitos de ter que enfrentar o dia a dia sem suas brincadeiras, seu bom-humor. Sua família? Nem preciso dizer...
As crianças não gostaram, estão tristes demais. O Bernardo chorou muito, a Luísa faz de conta que você foi viajar e não consegue ficar sozinha em parte alguma.
Os dias seguintes foram cinzas e mesmo que fossem ensolarados eu não os veria assim. Tenho dormido tarde, acordado cedo e procuro assumir todas as responsabilidades que me são impostas para evitar a vontade que tenho de dormir, dormir e dormir.
Ainda estou procurando essa tal de força que todos acreditam que tenho e que não sei de onde tirar...
E essa minha falta de fé, essa descrença em tudo que seja irracional (e que você tanto criticava), não me permite acreditar em nenhuma explicação para essa tragédia e me faz pensar na incerteza que é a vida. Afinal, para que servem os planos, os objetivos, se não sei se poderei realizá-los?
As pessoas insistem em dizer que você cumpriu sua missão. Mas que missão é essa, se você nem sequer conseguiu dormir um domingo sem pensar nas contas que tinha a pagar durante a semana? Que missão é essa que não lhe permitiu desfrutar de uma das muitas viagens que planejamos, de construir nossa casa, de ver nossos filhos crescerem, de ver nossa vida melhorar?
Como eu gostaria de poder acreditar em qualquer coisa que pudesse me dar uma explicação, mesmo que dolorosa, para essa perda. Mas, para mim, a morte é o fim.
E se antes eu tinha um olho triste para escrever e um olho alegre para viver, o que farei agora com dois olhos tristes?
Tudo o que eu quero é sentir saudade.